O caminho certo para a corrida

O caminho certo para a corrida

É sabido que a corrida é um desporto simples. Basta termos um par de sapatos de corrida decentes e estamos prontos para nos fazermos à estrada (ou fora dela), a qualquer hora e em qualquer lugar.
Ok, um relógio com GPS também ajudará. E sabe bem correr com roupa técnica. E já que estamos nessa onda, bem que podíamos experimentar uma daquelas bebidas isotónicas ou um gel energético, um cinto com garrafa ou mesmo uma mochila de hidratação, um monitor de ritmo cardíaco e um leitor de MP3, com aquela playlist que tanto gostamos, sincronizada na perfeição com a distância e ritmo da nossa corrida.

Apesar dos corredores que conhecemos contextualizarem muitas vezes a corrida como um desporto minimalista, como Seres humanos que somos, também somos peritos em ligar o “complicómetro” e tornar as corridas em algo demasiado complexo: tem que ser naquela altura do dia, com aquela temperatura adequada, sapatos assim ou “assado”, o telemóvel e o relógio têm que estar com bateria, já para não falar na pressão psicológica de se querer fazer aquela distância naquele tempo específico. Às vezes parece incrível como é que conseguimos sair porta fora.

Mas não foi sempre assim. Há muitos, muitos anos atrás (e não foi numa galáxia muito distante), a maioria das pessoas corria somente pela pura intenção de correr e treinar, sem muitas provas em que pudessem participar, nem recordes para bater, somente pelo prazer de se sentirem bem em fazê-lo. Provavelmente vocês também conhecem muitos corredores que correm demasiado afastados da pura essência que é correr. Desconstruindo a corrida, despojando-a tanto de acrescentos físicos como mentais e racionalizar mais a rotina, poderão fazer com que seja possível redescobrir o verdadeiro espírito da corrida e, como resultado, conseguirem não só apreciar mais a corrida, como até irem correr mais e mais vezes.

Amor incondicional pela corrida

Se dão convosco a repetir muitas vezes “não consigo correr, a não ser que…” ou “assim não vou conseguir correr”, provavelmente a vossa corrida está a ser dominada por uma série de rituais externos a ela. Esses rituais advêm do facto de se estar a fazer da corrida uma produção de tal forma gigantesca, que as atividades e pensamentos a ela associados ficam praticamente paralizados. Como de repente colocaram todo o poder da corrida sob essas condições, primeiro vão precisar de desligar a vossa corrida de todos esses pensamentos e dizer simplesmente “eu consigo correr, ponto!”

Talvez aqui a melhor recomendação vá no sentido de tentarem simplificar a vossa corrida, dando um passinho de cada vez. A título de exemplo, imaginem que têm quatro pequenas “coisinhas” que têm mesmo de acontecer para conseguirem ir correr. Comecem por eliminar uma, que talvez seja o não poderem sair para correr sem o vosso relógio com GPS, ou não poderem sair para correr a não ser que o tempo esteja perfeito para tal. Experimentem só livrarem-se conscientemente dessa condição e verifiquem como é possível, apesar de tudo, ir correr. Um mês depois, libertem-se de outra condição. E depois de outra, e por aí fora, até colocarem em vocês próprios o verdadeiro poder sobre a corrida.

O que é que podem ganhar? Se forem flexíveis para com a vossa corrida, ficarão mais capacitados de a praticar. Corram quando puderem, onde puderem. Podem até não correr num sítio ou nas condições mais perfeitas, mas pelo menos estarão a correr.

Estes rituais também podem afetar o que pensamos sobre a corrida. Muitos de nós caem na armadilha de sentir que as corridas só são verdadeiras corridas se forem feitas em tal ritmo ou se conseguirmos fazer pelo menos aqueles XX quilómetros. Estas são as condicionantes mentais que nos dizem para não corrermos, a não ser que as condições físicas estejam todas garantidas. E elas têm o tal efeito de nos distrair do divertimento que pode ser correr. Libertem-se destas restrições e experimentem sair para correr uma vez por outra, somente pelo simples prazer de correr, sem um tempo ou distância pré-programados. Depois digam-me o que sentiram…

“Just Do It”

Alguns corredores têm o problema oposto. A corrida é para eles um fenómeno imprevisível que pode beneficiar da estrutura que afeta os outros. Se se estiverem a ver cada vez mais frequentemente sem tempo para correr, é porque provavelmente o desporto transformou-se em mais uma parte da vossa stressante vida diária.

Recuperem o controlo sobre a corrida, tornando-a uma prioridade. Estabeleçam uma rotina onde a corrida entra sempre nos horários que estipularam. Se quiserem progredir enquanto corredores, poderão seguir muitas regras, mas uma das mais importantes é a regularidade com que correm.

Para complicar ainda mais a coisa, alguns corredores fazem aquecimentos de forma muito estranha: o despertador toca e carregam no botão de adiar 10 minutos e aproveitam para descomprimir mais um bocadinho enquanto se espreguiçam na cama. Afinal de contas o dia anterior no trabalho foi duro! Depois de adiarem o despertador pela 2ª ou 3ª vez, saltam da cama repentinamente, cheios de vontade para treinar… mas há um problema: já é tão tarde que ficaram com metade do tempo que tinham disponível para correr.

Para combater esta tendência de procrastinação, usem estratégias simples como colocar perto da cama as roupas da corrida já devidamente preparadas ou, porque não, dormir com elas já vestidas (eu faço-o quase sempre nas provas)? Isto ajudará a nossa mente a reconhecer qual o “uniforme” que temos vestido e mudar mais facilmente o interruptor para a posição da tarefa a cumprir: a corrida! Se costumam correr depois do trabalho, experimentem algo tão simples como trocar de roupa na casa de banho do escritório.

Se forem um modelo de eficiência e ainda estão a lutar com o tempo para conseguirem correr, digam a vocês próprios “eu preciso correr X vezes por semana” e de seguida estruturem a vossa agenda para que isso possa acontecer. Esta sugestão é particularmente útil se estão com algum projeto final nas aulas ou no trabalho, ou tiveram filhos e de repente não têm mãos a medir. Aceitem antes de mais que não vão poder fazer o vosso plano de treinos normal. Depois olhem para a vossa situação de uma forma realista e tentem perceber onde é que poderão encaixar alguma sanidade mental (e física).

Uma das razões mais comuns para não termos tempo para fazer o que mais queremos fazer, tem a ver com o facto de estarmos a agir nos termos de “primeiro farei o que tenho de fazer, só depois farei o que quero fazer”… provavelmente no dia em que concluirmos todas as coisas que tínhamos para fazer, já não vamos ter tempo para as coisas que queríamos fazer.

Assim, comecem os vossos dias com as coisas que realmente são importantes para vocês. Preencher o nosso tempo antes de mais com a nossa paixão tem um efeito mágico na gestão do tempo. De repente vão ter a energia, motivação e a perspetiva que faltava para cumprir aquela lista de desejos! Quando se sentirem sem tempo, saiam para uma corridinha (por muito curta que seja) e aproveitem para recarregar as baterias. Provavelmente isso irá ajudar-vos a meter o resto da vossa vida em ordem. A mim ajuda! E a vocês?

Fonte: Runner’s World
Por José Guimarães
Mais informações em www.desedentarioamaratonista.com