Os mitos da sobrevivência

Os mitos da sobrevivência

Sentir-se completamente à nora numa situação de sobrevivência por não ter a mínima noção do que fazer, já é perigoso.
Mas ainda mais perigoso é acreditar em informações de fontes dúbias, que foram repetidas ao longo dos tempos e que, aos olhos dos leigos na matéria, se tornaram verdades absolutas. Surgem assim uma série de mitos que se forem colocados em prática vão causar-lhe mais problemas do que não fazer absolutamente nada. Neste artigo vou desmistificar os mais importantes. Não vou entrar em pormenores científicos ou técnicos, o objetivo é mesmo tirar estas ideias da sua cabeça. Todos estes mitos são falsos, embora exista a ideia contrária.

1. Entramos de um momento para o outro numa situação de sobrevivência
Esta é a visão que os programas de TV nos transmitem: de um segundo para o outro, estamos numa situação de sobrevivência. Isto raramente acontece, o mais provável é isso acontecer depois de uma série de más decisões. O melhor sobrevivente não é o mais forte nem o mais preparado, é aquele que aposta na prevenção e fica longe dessas situações ou que se prepara para não ter de improvisar.

2. Só se perde quem se embrenha profundamente na Natureza.
Este é um mito que nos dá uma falsa segurança, que nos leva a pensar que só os aventureiros mais afoitos é que correm estes riscos. Nos E.U.A mais de 80% das pessoas que se perdem estavam a fazer uma simples caminhada durante um dia. Não descure a sua segurança ao pensar que vai apenas dar um passeio pela serra.

3. Se me perder, a primeira coisa a fazer é procurar comida
A grande maioria das pessoas em situações em que a sua sobrevivência está em risco morre nas primeiras 72 horas. Mas não morrem de fome, morrem normalmente de hipotermia. Em média o corpo resiste 3 semanas sem comida, por isso preocupe-se mais em resguardar-se dos elementos e em achar água, porque sem ela não sobrevivemos muito mais do que 3 dias.

4. Se a água for corrente e límpida, pode ser bebida sem mais cuidados
Já quase toda a gente ouviu falar da necessidade de ferver a água para a purificar. Mas também existe a ideia que se nos cruzarmos com um riacho de água cristalina em movimento, podemos bebê-la de imediato. Ora as bactérias, vírus e outros agentes patogénicos não são visíveis a olho nu e a montante do local pode estar, por exemplo, um animal em decomposição. A água deve ser sempre desinfectada, seja por fervura, seja por outro meio eficaz.

5. Não existem cobras venenosas em Portugal
Este é um mito muito enraizado e grande parte dos meus alunos fica bastante surpreendido quando lhes digo que realmente existem 3 tipos de cobras venenosas no nosso país: a Cobra Rateira (que possui os colmilhos na parte posterior da boca e por isso normalmente não consegue inocular veneno) e duas víboras (Cornuda e Seone) cuja mordedura inocula veneno e pode ser fatal em idosos, crianças ou indivíduos com o sistema imunitário debilitado. Se não tem conhecimentos na matéria, deixe as cobras que encontrar em paz.

6. Em caso de mordedura de cobra, devemos chupar o veneno da ferida
Aparentemente um atentado ao bom senso, muitas pessoas continua a acreditar que esta deve ser a forma de actuar nestes casos. Este procedimento não vai conseguir retirar o veneno e ainda pode colocar bactérias ou outros agentes infecciosos na ferida, agravando a situação. Existe um estudo científico que conclui que, mesmo com uma bomba, apenas 0,04% do veneno é extraído do corpo. A única coisa a fazer é desinfectar a ferida, manter a calma (para que o veneno não se espalhe ainda mais depressa) e dirigir-se ao hospital.

7. Aquele livro que li sobre plantas vai tornar-me um especialista
A fome tolda o pensamento. O mais certo é dizer que aquela planta à sua frente é a mesma do livro e é comestível, porque está com fome. Se morrem constantemente pessoas que em situações quotidianas identificaram mal cogumelos, imagine o que é estar cheio de fome e sob pressão. O conhecimento das plantas faz-se em campo, com cheiros, texturas e outras situações que não vêm nos livros.

8. Um abrigo terá sempre de ter um tecto
Este mito resulta não só de associarmos o abrigo a uma casa, mas também de alguns programas de TV, onde os intervenientes constroem por vezes autênticas moradias. Na maior parte das situações é preferível ter algo entre si e o chão em vez de um tecto. O objectivo será sempre abrigá-lo dos elementos e por vezes para fazer isso bastam alguns ramos de árvore.

9. Vi uns fulanos na TV a usar uma pederneira e aquilo é fogo garantido
A pederneira é realmente uma excelente ferramenta de sobrevivência. No entanto não constrói uma fogueira, apenas produz faíscas. Não pense que apenas por ter uma vai ter fogo garantido, é preciso muito mais do que isso. Se não foi preparado de casa, vai precisar de algo que receba a faísca e produza uma brasa e por sua vez algo que possa pegar fogo em contacto com essa brasa. E mesmo assim pode não ter sucesso, dependente das condições atmosféricas.

10. Se eu vir um animal a comer algo, então eu também o posso fazer
Existem pássaros que comem frutos e bagas altamente tóxicos para os humanos. É mais seguro comer o que os mamíferos comem e mesmo assim existem excepções, pois algumas espécies comem cogumelos e bagas que nos matariam. Muito mais seguro seria alimentar-se de animais, o problema é que, ao contrário das plantas, estes fogem. Todos os mamíferos com pelo são comestíveis, bem como os insectos de 6 patas e praticamente todos os peixes de rio e aves.

11. As bebidas alcoólicas ajudam a aquecer
Quem é que nunca viu num filme ou num livro um cão São Bernardo com uma miniatura de um barril de conhaque para dar à vítima de hipotermia? O álcool realmente dar-lhe-á uma sensação de calor, pois aumenta a irrigação sanguínea na zona da pele, o que se torna perigoso por duas razões: torna-se numa falsa sensação de segurança e diminui a temperatura na zona dos órgãos vitais.

12. A estrela polar é a mais brilhante do céu
O que não faltam são estrelas no céu mais brilhantes que a estrela polar. Podem até nem serem estrelas o que vê a brilhar, podem ser planetas (Júpiter e Vénus costumam ser bastante brilhantes). Se está a pensar em usar este método para determinar o Norte, provavelmente vai seguir na direcção errada. Tem de utilizar outros métodos para localizar a estrela polar e para isso convém saber identificar as constelações Ursa Maior, Ursa Menor e em alguns casos Cassiopeia. Já agora, a estrela polar só é visível no hemisfério norte. No hemisfério sul precisa de identificar a constelação Cruzeiro do Sul para obter precisamente a direcção sul.

13. É possível saber para que lado é o Norte observando onde cresce musgo
Isto até pode ser verdade em algum local do mundo, mas pessoalmente vejo musgo a nascer virado para todas as direcções, nomeadamente em sítios húmidos e com sombra. Não me parece ser possível haver um padrão seguro para identificar a direcção pelo local onde cresce o musgo e eu nunca usaria esta técnica para o fazer.

14. Todos os povos aborígenes ou indígenas são especialistas em sobrevivência
Vemos com regularidade os povos indígenas a obter água em sítios incríveis, a caçar com ferramentas rudimentares, etc. Como fazem coisas que nós aparentemente não conseguimos, normalmente na selva ou em zonas remotas, dizemos logo que são peritos em sobrevivência. Esquecemo-nos no entanto que eles não conhecem outra vida, aquilo é o seu dia-dia e foram ensinados desde pequenos a utilizar aquele tipo de ferramentas e a colocar em prática determinadas técnicas. É por isso que as dominam e conseguem persistir em ambientes que nós consideramos hostis. Imagine o que era um indígena ter de ir viver para uma cidade sem qualquer ajuda.

Conclusão
Ao tiramos estes mitos da sua cabeça, já o colocamos mais apto a sobreviver se um dia for necessário. No entanto isto não chega. Ter 10 facas, uma bracelete de paracord e uma pederneira a fazer faíscas e vestir roupas camufladas não o tornam um especialista em sobrevivência. Dominar minimamente algumas técnicas de sobrevivência implicam muito estudo, prática e trabalho de campo. Isto não se encontra apenas em livros ou filmes do youtube, logo se esta matéria o interessa o melhor será procurar formação credível na área.

Por: Luis Varela
Formador certificado
Instrutor de Bushcraft e Técnicas de Sobrevivência
www.luisvarela.pt
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