Prevenir o esgotamento nas (das) corridas

Prevenir o esgotamento nas (das) corridas

Vocês que correm, já alguma vez se sentiram como o personagem da foto deste artigo?

O estado psicológico de um corredor pode ter (e tem mesmo) um profundo efeito na resposta fisiológica à prática da corrida. As nossas emoções e pensamentos podem influenciar muito profundamente o nosso estado fisiológico durante os exercícios de treino e as provas. Por isto mesmo é que se torna muito importante que os corredores desenvolvam estratégias mentais que lhes permitam não só diminuir os gastos de energia com a corrida em si, mas também que lhes permitam lidar com a fadiga e o desconforto provocados por esforços extremos. Nestas situações, há que saber usar a ciência para lidar com a fadiga, o desconforto e a fraca motivação para correr.

Prevenindo o esgotamento
A psicologia no desporto já começou a explorar as características de certos antecedentes psicológicos, que permitem que alguns corredores se superem onde outros falham. Esta pesquisa revela que os muitos fatores que ajudam na perseverança de muitos atletas, podem por outro lado aumentar o risco de esgotamento. Estas pesquisas demonstraram que, num estudo levado a cabo entre 141 atletas de alta competição, os perfis motivacionais muito específicos podem levar a grandes sucessos no desporto, mas em último caso aumenta as possibilidades de frustração, performances pobres e mesmo um afastamento do desporto. O desejo de atingir grandes feitos pode eventualmente levar a fracas respostas aos treinos e às competições que resultam em resultados medianos, isto caso os mecanismos psicológicos de base não estiverem bem trabalhados.

Cientistas ligados ao desporto definiram este esgotamento como um estado de fadiga mental, emocional e física, produzido no período em que se procura atingir objetivos desafiantes. Este esgotamento pode estar acompanhado por 3 indicadores-chave:

– Falta de energia emocional e física
– Um reduzido sentimento de concretização e que os objetivos tão desejados estão muito longe de poderem ser atingidos
– Desvalorização do desporto que se pratica e diminuição do interesse em praticá-lo num nível superior

Os mecanismos através dos quais o esgotamento aparece nos atletas tem sido muito debatido. Alguns pesquisadores propuseram que os atletas com níveis de motivação inicial altíssimos têm tendência a fazer grandes investimentos no treino. Estes investimentos depois levam a um sucesso competitivo precoce e – consequentemente – a um estado de euforia, que produz um maior empenho no treino. Um fator-chave neste processo para muitos atletas parece ser o facto que o sucesso amplia o sentimento de auto-confiança. Enquanto isto pode parecer uma resposta saudável, pode também levar a uma situação em que a auto estima torna-se gradualmente dependente do sucesso desportivo. Consequentemente, a frustração inevitável que pode ocorrer com os piores resultados produzem ameaças a essa auto estima, que pode levar a uma mudança motivacional, onde aquele desejo de treinar muito e de vencer vai vacilando e é aos poucos substituído por um “desligar” do desporto, funcionando como um sistema de proteção tanto física como emocional.
Objetivos de tarefa vs. Objetivos do Ego
Para prevenir o esgotamento e maximizar a oportunidade de atingir os objetivos, um atleta precisa de estabelecer objetivos e um clima motivacional adequados. As pesquisas identificaram dois tipos de objetivos que estão presentes, tanto em níveis mais ou menos competitivos num contexto desportivo: os objetivos de tarefa e os objetivos do Ego. Quando um objetivo de tarefa é adotado por um atleta, a realização do mesmo é avaliada em termos diretos, ao invés da relação aos outros e como estes – comparativamente – se comportaram. Neste caso, o sucesso e o falhanço são determinados de acordo com o domínio singular sobre determinada atividade, seja a melhoria de um tempo, ou o atingir de uma determinada marca. Por exemplo, quando um corredor diz “quero fazer aquela maratona em menos de 3 horas” está a estabelecer um objetivo por tarefa. De forma semelhante, quando um corredor diz “quero treinar por forma a não ter lesões este ano”, também está a estabelecer um objetivo por tarefa.

Por outro lado, adotar um objetivo de ego significa que o seu cumprimento só vai ser avaliado de forma comparativa, em vez de uma forma direta. Neste caso, um corredor irá lutar para demonstrar as melhorias na sua performance – ou evitar mostrar alguma quebra nas suas capacidades – em comparação com outros corredores. Por exemplo, um corredor que adote um objetivo de ego pode decidir que “o meu ponto de focagem é terminar à frente do Manel na próxima corrida!” ou aidna “tenho que terminar a corrida nos primeiros 2 lugares”, ou ainda “tenho que mostrar a todos que sou o melhor corredor dentro do meu escalão”. A adoção de objetivos de ego pode significar também a tentativa de obter a aprovação de alguém significativo para a pessoa, como um treinador ou outro atleta. Um corredor que recebeu um comentário negativo de outra pessoa da comunidade das corridas, também pode decidir tentar vencer uma corrida, para provar à outra pessoa como ela estava errada, por exemplo.

As pesquisas científicas demonstraram que os corredores comportam-se melhor quando adotam objetivos por tarefa, do que objetivos de ego. Demonstrou-se que atletas que procuram atingir objetivos de tarefa tendem a procurar novos desafios, a colocar mais esforço nos treinos, maior persistência e interesse, bem como mantêm níveis motivacionais muito fortes, tendências que são contrárias ao esgotamento e consistentes no que toca a um bom desenvolvimento físico.

Em contraste, parece que usar objetivos de ego deixa os atletas mais vulneráveis ao esgotamento, talvez em parte devido à impossibilidade de controlar a performance e as opiniões dos outros, o que torna o cumprimento destes objetivos em algo mais incerto.

As pesquisas efetuadas sugerem que quando os atletas são dominados por objetivos de ego tendem a sentir que têm que estar constantemente a mostrar as suas capacidades, por forma a ganhar o respeito dos outros, o que faz com que o sentimento de auto estima fique ligado à capacidade de o fazer. Em vez de montarem o seu percurso em direção a, por exemplo, melhorar os seus tempos e sentirem-se bem com isso, os corredores motivados pelo ego precisam de estar constantemente a fazer melhor do que os outros, uma tarefa impossível para todos, exceto para os campeões mundiais nas modalidades em que se compete. Aí, os fracassos vão certamente acontecer, sendo tipicamente vistos como pouca adequação ao desporto que se pratica e posteriormente remediado pela aplicação de mais esforço de treino. No entanto, o stress físico e emocional tem tendência a aumentar à medida que as situações de competição se tornam ameaças potenciais para a auto estima. Teoricamente, o esgotamento pode então acontecer muito mais facilmente, quando comparado com uma situação em que o corredor está somente a tentar atingir uma maior destreza e domínio sobre uma atividade, sem que o seu valor pessoal esteja diretamente ligado a um relógio, à posição relativa numa corrida ou à opinião de outra pessoa.

Clima de desempenho vs. clima de mestria
Adicionalmente às características do objetivo, o clima motivacional também pode ter um grande impacto na possibilidade de se gerar um esgotamento. Foram identificados dois tipos de clima/ambiente pelos psicólogos no desporto: um dentro do contexto do desempenho e da performance, outro num contexto de mestria. Quanto o dia-a-dia de um corredor é caracterizado por um foco muito grande em competições entre vários atletas, comparações e a presença do treinador que “grita” vitória a todo o custo, bem como o reconhecimento do público da sua habilidade, então é dito que prevalece um clima de desempenho. Este tipo de ambiente enfatizam os objetivos de ego, em detrimento dos objetivos de tarefa, talvez por causa do sentimento de “só serei bom se for melhor que tu”, que prevalece sobre “serei bom se mantiver uma evolução progressiva dos meus tempos”. Um número significativo de psicólogos de desporto acreditam que os climas de performance podem aumentar o risco de esgotamento, quando comparados com os climas de mestria.

Como o nome indica, o clima de mestria prevalece na vida de um corredor quando existe ênfase sobre a aprendizagem e mestria da atividade (por exemplo, quando um corredor desenvolve a capacidade de manter o ritmo da passada nas subidas). O esforço é valorizado como um fim em si, mais do que uma forma de criar auto-estima, existindo um reconhecimento pessoal e privado do esforço, mais do que uma comparação pública com outros atletas. A presença deste clima de mestria aumenta as possibilidades de um corredor estar envolvido com objetivos por tarefa, mais do que objetivos de ego, seja em treinos como nas provas em que participa, isto porque os objetivos e práticas dos outros corredores são irrelevantes para aquilo que este atleta quer atingir e dominar numa tarefa específica.

Perfeccionismo

Um último fator motivacional que pode ter um grande impacto no desempenho das corridas é o carácter de perfeccionismo. Alguns estudos sugerem que o perfeccionismo é uma característica chave demonstrada por atletas de alta competição. Isto parece suficientemente razoável, uma vez que o perfeccionismo está muitas vezes ligado à busca intensa de níveis de desempenho altíssimos, uma tarefa que pode levar a resultados elevados.

No entanto, um problema-chave reside no facto que o perfeccionismo é inatingível. A corrida perfeita não existe e, de facto, uma corrida perfeita pode ser especialmente inatingível para um corredor perfeccionista, que estará provavelmente predisposto a não olhar só para o seu desempenho, mesmo que este tenha sido notável. Assim sendo, o perfeccionismo pode deixar mesmo um atleta constantemente vulnerável ao fracasso, o que pode levar a um stress emocional enorme e, consequentemente, a uma quebra na sua capacidade atlética. Algumas linhas de investigação sugerem que quando os atletas perfeccionistas não são capazes de viver dentro das suas expercativas de desempenho, a vergonha, raiva e ansiedade podem resultar num elevado risco de esgotamento. Adicionalmente, há provas que os atletas mais perfeccionistas tendem a atribuir a si próprios demasiado para fazer e atingir, tornando-se eventualmente sobrecarregados com todos os objetivos que têm de atingir. Afinal de contas, têm que ser perfeitos!

Pesquisas sobre esgotamento
Uma das conclusões a levar daqui é que as aproximações cognitivas, emocionais e psicológicas à corrida podem ter um impacto profundo no desempenho e no risco de esgotamento. Quando as competições se tornam ameaças à auto confiança, os riscos de stress excessivo e esgotamento aumentam. Quando as corridas são vistas como desafios e oportunidades para melhorias de métricas e mestria das atividades, o risco de esgotamento é reduzido e a possibilidade de um desempenho superior aumenta.

Quando os corredores acreditam que as suas ações (como as sessões de treino) os vão levar aos objetivos desejados, como tempos de corrida específicos mas razoáveis, a sua motivação aumenta e têm as melhores hipóteses de competir num nível superior. Pelo contrário, lutar constantemente para atingir a perfeição pode aumentar a possibilidade de um esgotamento debilitante.

A conclusão geral é que o perfil motivacional do corredor é muito importante e, em alguns casos, pode interessar mais do que certos padrões de treino que sejam estabelecidos. Perfis motivacionais fracos podem fazer com que um corredor capaz se sinta incapaz e envolvê-lo num manto de letargia que lhe retirará qualidades e possibilidades de atingir objetivos. Um fraco trabalho motivacional pode mesmo fazer com que bons treinos pareçam fracassos. Os corredores parecem trabalhar melhor quando usam um perfil motivacional orientado para objetivos de tarefa, um clima de mestria e um certo afastamento do perfeccionismo. Este perfil é estabelecido com uma visão futura e deixa que os corredores se sintam satisfeitos com todas as pequenas conquistas nos treinos e nas provas. Também dá ao corredor individual uma espécie de “folga”, deixando-o ter flexibilidade suficiente para atingir os seus objetivos. Nunca, mas mesmo nunca liga o sentimento de auto estima com um tempo ou posição numa corrida.
Por José Guimarães
Para mais informações www.desedentarioamaratonista.com