Psicologia da Sobrevivência

Psicologia da Sobrevivência

Já ouviste falar em Psicologia da Sobrevivência? O tema está na moda!
Existem vários programas de televisão que focam esta temática, com milhões de espetadores em todo o mundo, onde especialistas demonstram técnicas para sobreviver em determinadas situações. No entanto há que ser pragmático: Estamos a assistir a um programa de entretenimento e não a uma formação em sobrevivência. Estes programas são espetáculos televisivos que procuram audiências e não informar devidamente os espetadores sobre o que fazer em situações de sobrevivência.
Poderá o leitor perguntar para que precisa destes conhecimentos, se no seu dia a dia nunca vai estar numa situação de sobrevivência? Acredite que estas situações surgem quando menos esperamos: Num acidente automóvel, desastres naturais, ataque terrorista ou mesmo num simples passeio por zonas mais despovoadas. São tudo situações comuns nos dias de hoje, por isso não devemos dizer que nunca nos vai acontecer.
Quando ouvimos a grande maioria dos especialistas falar nestas questões, normalmente debruçam-se sobre dois grandes eixos: Equipamento e conhecimento. Tendo os conhecimentos corretos e equipamento adequado, podemos sobreviver a praticamente todas as situações de sobrevivência. Eu não concordo e dou bastante ênfase nas minhas formações a mais um eixo, na minha opinião até mais importante que os dois referidos: O psicológico.
E a importância deste eixo é demonstrada não em teoria, mas na prática: Existem várias situações de sobrevivência relatadas em que indivíduos com pouco mais do que a roupa do corpo sobreviveram, enquanto outros totalmente equipados e muitas vezes conhecedores de técnicas de sobrevivência acabaram por morrer. O nosso cérebro não está hoje em dia preparado para estas situações, como estava nos primórdios da humanidade e é preciso voltar a “programá-lo” para agir perante elas.

Aspetos psicológicos da sobrevivência a curto prazo: Negação, ansiedade, medo e pânico

Como podem ver não inclui o stress nesta lista. O stress é um conceito difícil de definir e ainda hoje os investigadores têm acesas discussões sobre se o stress é uma causa, um efeito ou algo entre os dois. Dos aspetos que referi, praticamente todos podem ser resultado do stress ou em sentido contrário podem eles próprios causar stress. Sejamos então mais objetivos e falemos de aspetos mais concretos.
O primeiro a surgir é normalmente a negação. Quantas vezes já ouvimos pessoas a dizer “Isto não me pode estar a acontecer!” Enquanto o nosso cérebro não tiver plena consciência do que nos aconteceu, não tomaremos as decisões corretas. Esta negação vai colocar-nos em perigo, pois teremos a tendência de não fazer nada, porque nada de especial se passa. Muitas pessoas em situação de sobrevivência precisam que alguém as desperte para a realidade, o que pode ser complicado se estivermos sós. É preciso termos rapidamente a noção que estamos potencialmente em perigo, para começar de imediato a raciocinar e planear, evitando passar de uma situação de negação, para o outro extremo: o pânico
O pânico é o inimigo psicológico número um do sobrevivente e afeta grandemente a capacidade de raciocínio e bom senso. Mesmo que o sobrevivente não o admita, ele passou por momentos de pânico e a diferença é apenas se os conseguiu ultrapassar ou a rapidez com que os dominou. Existe uma estratégia para prevenir ou combater este estado, chamada STOP (do inglês Sit, Think, Observe and Plan, o que traduzido à letra quer dizer sente-se, pense, observe e planeie). A primeira fase pretende ser apenas um corte radical com a situação anterior, onde vai respirar fundo e colocar os pensamentos em ordem. Na fase seguinte (pensar) faça um inventário do que tem disponível que lhe possa ser útil. Se tiver meios para isso, escreva num papel algumas das coisas que lhe vieram à ideia e o podem ajudar. Esta simples prática pode fazê-lo sentir-se mais confiante e seguro e ocupará algum do seu tempo, tirando os seus pensamentos de outras coisas mais negativas (útil também para combater a ansiedade, como veremos mais à frente). Depois das ideias em ordem, é preciso observar à nossa volta, contabilizando os perigos mas também as oportunidades de abrigo, água e comida, e dependendo dos casos acesso a terreno elevado e a possibilidade de sinalizar a sua posição. Depois de tudo isto é preciso planear.
Nesta fase pense positivo porque afinal já venceu o pânico, um dos seus maiores inimigos, por isso pode vencer tudo o resto. Ordene as suas prioridades e faça um plano de acordo com a sua realidade: O que vai fazer, como pode ser salvo o mais rápido possível, etc
Entre estes dois extremos (negação e pânico), temos o medo. Na introdução referi que o nosso cérebro não está preparado para situações de sobrevivência no geral, mas felizmente manteve algumas características do homem primitivo.
Talvez nunca tenha pensado nisso, mas o medo é ele próprio um mecanismo de sobrevivência. É ele que nos alerta para perigos que, por exemplo, podem colocar a nossa integridade física em risco. Não vale a pensa entrarmos profundamente no que acontece no nosso corpo em termos fisiológicos, mas podemos resumir que a libertação de adrenalina e de outros químicos em situações de medo provoca várias reações que podem ser úteis, preparando-nos para o que possa surgir: aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, dilatação das pupilas, aumento do nível de glucose, aumento da capacidade dos pulmões receberem oxigénio, entre outros. Analisando estas reações, pode o leitor ficar a pensar que numa situação de sobrevivência é bom estar constantemente com medo. Infelizmente não. O medo deve ser controlado, porque o mesmo nos pode impedir de realizar algumas tarefas essenciais para sobrevivermos e faz com que o nosso corpo tenha tendência a parar funções não vitais como a digestão e o sistema imunitário. Uma coisa é certa, você não irá querer o seu sistema imunitário parado numa situação de sobrevivência. Resumindo, é bom ter medo, mas convém mantê-lo controlado e para isso pode sempre confrontar a sua mente, arremessando contra ela ideias como “eu já fiz coisas mais difíceis do que isto e consegui”.
Em relação à ansiedade, também ela é um alarme natural que nos mantêm alerta e nos faz planear antecipadamente. Pessoalmente costumo chamar-lhe “o medo do medo”, porque é um “sofrimento” precoce relativamente a algo que pode vir a acontecer. A ansiedade positiva numa situação de sobrevivência é o que nos faz, por exemplo, ir recolhendo acendalha ao longo do caminho, porque já estamos preocupados em como fazer o fogo no final do dia. Tal e qual como o medo, precisa ser dominada, porque uma ansiedade constante trás sentimentos de angústia que nos quebram física e psicologicamente.
Na minha opinião um dos fatores que causam mais ansiedade numa situação de sobrevivência é a falta de confiança em nós próprios, por isso é importantes dar passos seguros, ir resolvendo pequenos problemas para ganharmos confiança para os desafios maiores. Se tiver ferramentas para isso faça um diário escrito registando principalmente os seus triunfos e apontando tudo o que lhe pareça útil no futuro (conforme já referi acima).

Por Luis Varela
Lê este artigo na íntegra na Revista Outdoor!